Thursday, August 24, 2006

Entrevista Com Ondjaki que eu e Tatiana Carlotti fizemos para o especial Lusofonia da Carta Maior:

ENTREVISTA - ONDJAKI

Da memória da infância à construção de um romance que contorna a História de Angola
“A literatura deve ser um compromisso do autor com o seu mundo interno, ainda que, muitas vezes, esse caminho faça-se falando e repensando o real, o histórico.”
Flávio Corrêa de Mello e Tatiana Carlotti – especial para Carta Maior*

Ondjaki é poeta, sociólogo, roteirista e romancista. Angolano de 29 anos, escreveu romances, como Bom dia camaradas (2001), O assobiador (2002) e Quantas madrugadas tem a noite (2004), habitados por personagens que lutam para entrever beleza e esperança entre os destroços de uma das mais longas guerras civis africanas.Ondjaki é artista eclético: interessa-se pela interpretação teatral e pela pintura, já tendo realizado duas exposições individuais, em Angola e no Brasil; escreve para cinema - co-realizou um documentário sobre a cidade de Luanda, Oxalá cresçam Pitangas, de 2006. É membro da União dos Escritores Angolanos. Recebeu, no ano 2000, uma menção honrosa no prémio António Jacinto (Angola) pelo livro de poesia Actu Sanguíneu. Em 2005, o seu livro de contos, E se amanhã o medo, obteve os prémios Sagrada Esperança (Angola) e António Paulouro (Portugal). Tem diversas traduções em francês, espanhol, italiano e alemão.Ondjaki esteve recentemente no Brasil, participando da 4ª Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, onde dividiu com o americano de origem nigeriana, Uzodinma Iweala, a mesa “África, Áfricas”, na qual os dois jovens autores conversaram sobre a situação de seus países de origem e sobre seus romances, que descrevem situações de guerra civil de um ponto de vista inusual: o da infância. Conversamos com Ondjaki que foi muito conciso e pontual em suas respostas sobre temas como a própria trajetória literária, as confluências entre a escrita e a política em seu país, literatura africana e seu romance recém-lançado no Brasil, Bom Dia Camaradas.

Carta Maior – Como nasceu a escrita dentro de ti? Fale um pouco da tua trajetória.

Ondjaki - Nunca se sabe quando a escrita nasce dentro de nós. A minha trajetória inicia-se por nascer em Luanda, uma cidade cheia de histórias, de ficção, de fantasia, também de pobreza e muitas vidas diferentes. A minha literatura apareceu primeiro nos poemas, tristes, da adolescência. Depois fui para o conto. Depois aprofundei a poesia. Depois me iniciei nos romances. Quando dei por mim já estava a escrever.

CM - Como nasceu Bom dia Camaradas, recém-lançado no Brasil?

O - Foi o desafio de um editor amigo, angolano. Ele queria um livro que falasse da minha perspectiva da independência de Angola. Eu nasci em 1977, dois anos depois da independência, e eu pensei que a minha visão sobre todo esse processo histórico era a da minha própria infância. Organizei algumas memórias, preparei alguns capítulos e comecei a escrever. Claro que tive que ficcionalizar a minha vida, e a dos outros também. Mas um livro é sempre isso.

CM - Como avalias a participação de Cuba em Angola?

O - Esta resposta exigiria muito mais espaço, porque sou contra avaliações e respostas superficiais. Mas digamos que a presença cubana em Angola foi fundamental para impedir que os sul-africanos tomassem o poder em Angola, nas várias ofensivas que fizeram durante os anos 80. A cooperação cubana também ajudou parte da população, com assistência médica e educacional. Só posso considerar essa presença como positiva.

CM – Qual a relação entre política e literatura atualmente em Angola?

O - Penso que é ainda muito forte. Mas acho que os escritores devem, acima de tudo, obedecer aos seus ímpetos ficcionais, estéticos. A literatura deve ser um compromisso do autor com o seu mundo interno, ainda que, muitas vezes, esse caminho faça-se falando e repensando o real, o histórico. Mas o ponto de partida deve, acho eu, ser interno. A verdadeira arte vem de dentro.

CM – Qual a importância da incorporação de dialetos e do falar angolano no processo de criação?

O - A incorporação ou exclusão de determinados falares é uma opção estética. Serve a minha literatura, serve a algumas das histórias que quero contar. Vejo essa incorporação de ritmos e de palavras como uma necessidade estética de cada um.

CM - Há espaço para a nova literatura em Angola?

O - Todo o espaço. A literatura angolana está em permanente nascimento. Nós, os novos escritores, sentimos o peso da qualidade daqueles que nos antecederam, isto é, fomos antecedidos por grandes nomes e é difícil não sentir isso. Mas gosto desse desafio. A boa literatura nunca foi fácil, nem em Angola nem na Conchichina.

CM - O que é a boa literatura?

O - Não sou especialista em literatura, apenas sinto que a boa literatura engrandece a arte de escrever e o modo de sermos humanos. Há livros que acrescentam valores culturais à Humanidade.

CM - Quais outros escritores africanos você recomenda a leitura?

O - São muitos, mas poderia falar de Luandino Vieira, Ruy Duarte de Carvalho, Ana Paula Tavares, Manuel Rui, Boaventura Cardoso, João Maimona, Mia Couto, Luis Bernardo Honwana, Eduardo White, Paulina Chiziane, Conceição Lima, Germano de Almeida...

CM - O que tens a dizer ao leitor brasileiro?

O - Não sei o que dizer... Faz sentido pedir que nos leiam, a todos os autores africanos, sem preconceitos e com abertura sensorial para nos receberem na nossa diversidade?

ver entrevista no site da carta maior

Wednesday, August 23, 2006

Dando o recado

Dando o Recado: Notícias sobre a Off Flip e algo mais!
No dia 12 deste mês participei de uma mesa na OFF-FLIP (evento paralelo ao da FLIP) cujo tema foi produção independente e mercado editorial. Na mesa estavam escritores (eu, Micheliny Verunschk, Marcelino Freire), editores (Leila Name, da Nova Fronteira, e Arthur Rodrigues, sócio da Literis) e uma agente literária, Mariza Moura, da Página de Cultura.
A grosso modo, a mesa explorou assuntos gerais, tais como: a dificuldade de inserção no mercado por parte dos escritores, as mirabolantes políticas das editoras para sobreviver no mercado e, no meio disso tudo, os agentes literários convivendo com a dança das cadeiras nas grandes casas editoriais. O tempo do debate foi curto e naquela noite ainda havia outras atividades na agenda da OFF-FLIP, em função disso não conseguimos aprofundar o tema proposto, o que de fato, era o desejo de diversas pessoas que participaram do debate, ainda assim, considerei o saldo positivo, já que conseguimos visualizar as questões essenciais das partes envolvidas no fazer literário. Entretanto, existem alguns tópicos que, por pura falta de tempo, não consegui engendrar durante minha explanação.
Hoje, a Bagatelas atua em todos os segmentos da produção literária, desde a feitura do texto até a edição de seus materiais, assim como na promoção de eventos de cunho literário e reflexivo. Esta situação não nos foi mediada somente pela necessidade de nos promovermos ou algo do gênero, embora admitamos: a necessidade tem papel incisivo no surgimento de nosso grupo. Mas, o que nos move (se não o todo, mas pelo menos boa parte dele) é, justamente, afirmarmos uma possibilidade de fazermos literatura de modo independente e refletir sobre temas como a profissionalização do escritor, mercado editorial e preços abusivos de livros no Brasil. É óbvio que se algum escritor da Bagatelas, por ventura, acerte um bom contrato com uma casa editorial de grande porte, comemoremos com festas em botequins, porque não somos um círculo fechado e porque todo escritor que se assume enquanto tal e busca sua profissionalização quer ter leitores, mesmo já sabendo que contratos em editoras com distribuição nacional não significa em nada a consolidação de um projeto profissional de ganhar a vida com literatura, é só fazer as contas.
A proposta da Bagatelas é contra-ideologizante em sua essência, nosso nome é uma homenagem a Lima Barreto, as colunas de colaborações e artigos também referem-se aos contos deste autor mulato, suburbano, que escreveu obras cuja temática ambientava-se em subúrbios cariocas, com personagens esquivos e sonhadores, angustiados. Lima faleceu miserável e fudido, extorquido do convívio social, só começou a ser visto e estudado pela academia e substratos universitários a partir da década de 80 com a abertura política, até aquela época tivemos apenas alguns intelectuais fazendo monografias e teses sobre sua obra. Assim como ele, tantos outros que padeceram da miséria: Cruz e Souza (escritor negro), João Antônio e Antônio Botto (homossexual, contemporâneo de Pessoa e que morreu no Brasil sofrendo de condições completamente adversas), só para citar alguns escritores que foram renegados pela nossa sociedade impregnada de cultura européia, pela Europa “mãe” com seus conceitos raciais cunhados no passado, mas que ainda se perpetram no nosso inconsciente, na desigualdade social e nos governos, majoritariamente brancos - no Brasil e em grande parte dos países que foram colonizados pelos europeus - e bem sucedidos economicamente. É pensando nestes fatos, nestes elementos, que a Bagatelas produz uma revista de 3,00 reais, que procura formar leitores em escolas do ensino médio e universidades, que discute a profissionalização do escritor e se afirma como um grupo disposto a atuar em todas as posições.
Raphael Vidal, um dos fundadores de nosso barulhento agrupamento, percebeu isso com bastante clareza quando propôs o nome em homenagem ao bravo Lima. E ainda, é por conta disso que Márcio Calixto escreve em seu texto “eloquência” na coluna intermitências na Bagatelas que um dos denominadores comuns de nosso grupo é a vontade de sobrepor diversos obstáculos, sobretudo o do individualismo: “…mas na Bagatelas! a unidade vem da perspectiva temática – essencialmente o homem em seu grau de depreciação com o próprio homem, uma crítica ao individualismo”. Esta depreciação é a carta a Maria de Luciano Silva, expondo as agruras da vida nordestina na grande capital; os personagens filhos de fila de ônibus e cartão ponto de Tatiana Carlotti; o pastor queimado pregando dentro de um trem da central da Brasil de Nilovisky; o fiscal de ônibus de Rodrigo Melo; a personagem do escritor fracassado de Emerson Wiskow; a necessidade de escrever palavras simples de Eloíse Porto; o Lado B de Rogério Augusto; o cego que tudo vê na guerra de independência de Guiné-Bissau de Waldir Araújo; a particular sensorialidade de Amanda K; acoplado a esses colegas o Merderê de Raphael Vidal descolando textos em que a velocidade dos diálogos desnorteiam os leitores.
Então, caros leitores e leitoras, me adiciono aos meus colegas, assumindo-me cético ao individualismo que permeia os meios literários e que só promove o acamodamento em discussões pertinentes ao segmento. Urge discutir: previdência para artistas (enquanto escrevo estas linhas, penso no Retiro dos Artistas). Urge, também, nos embasarmos sobre políticas públicas para a literatura, questionar o caráter de distribuição de fomentos e incentivos, fazer coro sobre a importância de termos cada vez mais bibliotecas espalhadas pelos quatro cantos de nosso país, reinventarmos a pedagogia essencial para o ensino literário, estimulando nossos jovens a ler. Mas não estou sozinho, tenho companheiros que fazem essa discussão tanto na Bagatelas quanto em outros agrupamentos, cito especialmente o pessoal da FLAP e o Projeto Identidade e tantos outros que ainda não tive o prazer de conhecer.
Por fim, acredito na palavra transformadora, insubmissa, aquela que ecoou na voz e na mão de escritores como Agostinho Neto, poeta negro, revolucionário. Palavras capazes de subverter o panorama essencialmente mercadológico da literatura, sem deixar de ser um produto vendável, Acredito, também, na força da linguagem, em sua capacidade de guiar meu texto. Eu acredito na literatura.

Sunday, August 13, 2006

Abaixo estão matérias que reproduzi da carta maior.

Friday, July 28, 2006

A batalha pelo sul do Líbano

Por Robert Fisk

Qlaya, Sul do Líbano, 25 de Julho. A batalha pelo sul do Líbano tem dimensões épicas, mas das alturas de Khiam os israelenses parecem estar em sérios problemas. Seus aviões F16 aparecem no céu, resplandecentes ao sol — pequenos peixes prateados cujos zumbidos tornam-se mais fortes à medida que descem —, suas bombas explodem sobre a velha prisão tomada pelo Hezbollah. Mas mais além da fronteira posso ver fogos raivosos que ardem ao longo das colinas e nuvens de fumo que se elevam sobre assentamento judeu de Metullah. Ninguém acreditava que assim fosse, após 13 dias de assalto israelense contra o Líbano. Os katiushas ainda saem aos pares de Khiam, deixando rastros brancos no céu e impactando contra as colinas e cidades fronteiriças israelenses. Será a frustração ou a vingança que faz com que Israel continue a lançar bombas sobre inocentes? Nas primeiras horas de terça-feira uma tremenda explosão acordou-me, sacudiu as janelas e fez estremecer as árvores, e um enorme raio levantou-se no céu a oeste de Nabatea. Assim, as vidas de uma família de sete pessoas ficaram extintas. E como foi — isto é algo que obceca organizações humanitárias que trabalham no Líbano — que os israelenses bombardearam duas ambulâncias em Qana, matando dois dos feridos que transportavam e ferindo um terceiro civil pela segunda vez no mesmo dia? Todo o pessoal ficou ferido; um trabalhador tem um troço de metralha cravado no pescoço, mas o que preocupou a Cruz Vermelha Libanesa foi que os mísseis israelenses atravessaram o próprio centro da cruz vermelha pintada sobre cada veículo. Os pilotos utilizaram a cruz como alvo de tiro? O bombardeio de Khiam provocou seus próprios incêndios nas colinas ao sul de Qlaya, onde os habitantes cristãos maronitas vêem tudo de um caminho no alto da zona montanhosa, como espectadores de uma batalha do século XIX. Khiam é — ou era — uma bonita aldeia de casas com entradas de pedra e janelas com ferragens decorativas, mas o objectivo de Israel é a famosa prisão que aí se encontra. Antes da retirada israelense do Líbano em 2000, o Exército do Sul do Líbano (ESL, aliado de Israel) utilizou o estabelecimento penal para deter e torturar com electricidade centenas de membros do Hezbollah e seus familiares. Foi este mesmo complexo carcerário, agora convertido pelo Hezbollah em Museu da Tortura, que o finado Edward Said visitou pouco antes de morrer. Muitos membros do Hezbollah foram encerrados aqui em celas subterrâneas construídas sob o forte pelo antigo mandato francês. Estes mesmos homens combatem agora os israelenses e quase certamente refugiam-se dos seus embates nas mesmas celas nas quais outrora padeceram, e pode ser que até armazenem aí os seus mísseis. Em Marjayoun, vizinha de Qlaya, onde chegaram a alojar-se os quartéis do ESL, as tropas libanesas tentam desesperadamente defender-se, como se fossem guerrilheiros do Hezbollah, utilizando as ruas deste povoado católico grego para disparar mísseis contra Israel. Patrulhas formadas por sete militares movem-se à noite pelos becos de ambas as aldeias, para o caso de o Hezbollah ter a ideia de dar mais motivo a Israel para lançar mais bombas sobre as nossas cabeças. Na guerra, aguçam-se todos os sentidos. Ao amanhecer, os pássaros, a música, as flores, tudo adquire um novo significado. Uma família ainda habita a pequena casa frente à minha e vi uma mulher, ao entardecer, a recolher legumes da sua horta para a ceia, e a ignorar os urros do avião israelense que sulcava o céu e as sinistras mudanças na pressão do ar provocadas pelas bombas. Em Beirute, uma pessoa observa a estupidez das nações ocidentais entre divertido e horrorizado, mas estar sentado aqui nestes povoados das colinas e escutar que a secretária de Estado estadunidense, Condoleezza Rice, planeia redesenhar o Líbano é claramente uma lição sobre a capacidade humana de auto-engano. Segundo os correspondentes estadunidenses que acompanham Rice na sua visita ao Médio Oriente, ela propõe a intervenção de uma força encabeçada pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) ao longo da fronteira libanesa-israelense que dure 60 a 90 dias, para garantir um cessar fogo. Depois disto espalhará por todo o Líbano uma força encabeçada pela aliança atlântica, de maior tamanho, que se encarregará de desarmar o Hezbollah e de treinar o exército libanês antes de este ser também colocado na fronteira. Este plano, que tal como todas as propostas estadunidenses é exactamente o mesmo que Israel exige, contem a mesma qualidade de arrogância mentirosa das palavras que pronunciou na semana passada o cônsul geral israelense em Nova York ao afirmar que "a maioria dos libaneses aprecia o que estamos a fazer". Acredita Rice que o Hezbollah quer ser desarmado, ainda que seja nos termos da resolução 1559 do Conselho de Segurança? Não houve já uma força da ONU em Beirute que fugiu do Líbano depois de um grupo próximo ao Hezbollah atentar contra uma base de marines dos Estados Unidos no aeroporto de Beirute, em 1983, matando 241 soldados estadunidenses e dezenas de soldados franceses segundo mais tarde? Alguém acredita que as forças xiitas muçulmanas não farão o mesmo com qualquer força de "intervenção" da NATO? O Hesbollah tem estado à espera, treinando e sonhando com esta guerra durante anos, por mais inescrupulosas que julguemos suas acções. Não vão entregar um território que libertaram do exército israelense através de uma guerra de guerrilhas de 18 anos, muito menos vão entregá-la a uma NATO que actua a pedido de Israel. O problema radica, com toda certeza, em que os Estados Unidos vêem este banho de sangue como uma "oportunidade" e não como uma tragédia; como ocasião para humilhar os simpatizantes do Hezbollah em Teerão e ajudar a desenhar um "novo Médio Oriente" sobre o qual Rice falou de maneira tão enfadonha. De facto, é mais provável que isto seja usado pela Síria para humilhar Israel e os Estados Unidos no Líbano. Naturalmente, o Hezbollah trouxe a catástrofe aos seus correligionários. Por todo o vale de Beeka, os longos e perigosos caminhos cheios de crateras pelos quais tive de viajar para chegar a Qlaya estavam desertos, excepto por alguns homens conduzidos por homens em pânico cujas famílias estavam atulhadas nos veículos e que estendiam lençóis brancos pelas janelas na esperança que inspira dó — depois de todos os bombardeamentos israelenses contra civis — de que isso poderia protegê-los de alguma forma. O único civil que vi a caminhar por estes caminhos aterradores foi um pastor de cabras que conduzia seus animais em torno das enormes crateras. Ao falar com ele descobri que está quase totalmente surdo e não ouve as bombas. Nisto, ao que parece, tem muito em comum com a secretária de Estado Condoleezza Rice. O original encontra-se em The Independent, a versão em castelhano em http://www.jornada.unam.mx/2006/07/26/048n1mun.php Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Ainda Líbano!!!

O povo dispensável do LíbanoEditoria: Governos21/Jul/2006 - 15:53
por Mike Whitney
Beirute, Julho/2006. O mais chocante no assalto de Israel ao Líbano é a precisão desapaixonada com que o bombardeamento foi executado. De ponte para silo, de silo para central eléctrica, de central eléctrica para fábrica, de fábrica para mesquita, de mesquita para hospital, de hospital para edifício de apartamentos, cada um dizimado com a calma desdenhosa de um cirurgião a remover um tumor cancerígeno.
Não sentimos qualquer sentido de raiva no comportamento de Israel, apenas a selvageria calculada de homens que encaram como seu dever decapitar sistematicamente toda uma civilização e deixá-la em ruínas. A destruição do Líbano é o trabalho de robots, não de homens. Insensíveis, sem remorsos, feixes de pele e osso.
Ninguém poderia ter feito o que estes homens fizeram em apenas sete dias e continuar a fazer parte da família humana a que você e eu pertencemos.
Até agora, não há indicação de que os soldados israelenses capturados tenham sido agredidos ou maltratados. O arrasamento de uma metrópole outrora agitada e próspera foi executado enquanto as vítimas certamente ainda estão enfiadas em algum desconhecido lugar escondido. Não há objectivo para a turbulência de Israel, os termos da libertação podiam ter sido negociados numa "troca de prisioneiros" como fizeram muitas vezes antes. O bombardeamento é puramente um acto de violência gratuita destinado a destruir uma nação que mal se recuperou de 18 anos de ocupação israelense. Agora o Líbano retornou à Idade da Pedra.
Por que?
Terão os soldados sido torturados ou abusados como teriam sido sob a custódia americana ou israelense?
Espero que não. Espero que estejam a ser bem tratados. Espero que sejam soltos e possam passear em direcção ao sul através dos escombros e das partes de corpos esparramados de modo a que eles possam apreciar o que o seus líderes fizeram em seus nomes. Espero que sejam libertados de modo que o Hezbollah possa clamar por uma vitória moral sobre as forças da desumanidade e do cinismo que infectam as poltronas do governo em Tel Aviv e Washington.
Seja qual for a oportunidade que possa ter havido para a paz, ela se foi agora. Temos de ser realistas. A próxima geração de muçulmanos desprezará a nós e a tudo o que representamos. Nenhuma capital ou cidade estará segura. Os EUA e Israel estão a semear dentes de dragão por todo o Médio Oriente e a sua colheita sangrenta virá nas décadas pela frente. Cheney estava certo, esta guerra poderia perdurar por 50 anos e não acabar no nosso tempo de vida.
O Líbano foi a última gota. Ele prova que era verdade tudo o que disse Bin Laden: "Eles vieram tomar sua terra e seus recursos; eles vieram desonrar suas mulheres e desgraçar sua cultura; eles vieram humilhá-lo em frente aos seus filhos e amontoar ignomínia sobre sua religião".
Onde é que ele estava errado?
O escritor Pepe Escobar disse isto melhor: "O efeito da barragem bombista israelense será atrair ondas mais novas e mais caudalosas de muçulmanos moderados para o Islão político e radical. A percepção da rua árabe — assim como para a maior parte dos 1,4 mil milhões de muçulmanos do mundo — foi reforçada: o eixo EUA-Israel parece ter uma licença para matar árabes com impunidade" (Pepe Escobar, "Leviathan Run Amok" , Asia Times).
Escobar está certo. As vidas de muçulmanos nada significam. Eles tornaram-se o povo "dispensável" cuja segurança simplesmente não importa. A sua carnificina maciça aparece regularmente no noticiário da noite enquanto estórias de cortar o coração são desfiadas acerca do sofrimento de pais e mães israelenses que perderam seres amados em ataques retaliatórios.
Os muçulmanos não têm mães e pais? Será tão importante demonizá-los que devem ser despojados de todo traço de humanidade, incluindo pais?
Para onde irão estas pessoas "dispensáveis" quando os recursos do mundo continuam a secar e as suas pátrias são cada vez mais assediadas?
Indonésia, Somália, Arábia Saudita, Irão, Síria, Líbia, Sudão, Afeganistão; para onde irão todos eles? Serão eles colocados em campos de refugiados ou viverão como prisioneiros na sua própria terra; serão alvejados como cães ou levantar-se-ão e combaterão até o fim?
Quantos escolherão aderir às fileiras crescentes de jihadis e grupos de resistência a conspirar e planear represálias do modo que puderem? Quantos considerarão que é melhor morrer de pé do que viver de joelhos?
O Líbano preparou o caminho para um século de guerra. Foi arrasado e o seu povo evacuado para ajustar contas com o Hezbollah e criar uma zona tampão no flanco norte de Israel. As vidas arruinadas não têm consequência. A cidade será reconstruída com empréstimos do Banco Mundial e do FMI e o trabalho será contratado pela Halliburton e pela Bechtel. Já vimos tudo isto antes; a destruição absoluta de uma sociedade de modo a que possa ser colocada nas mãos dos empreiteiros globais. O Líbano não será excepção.
Agora que o flanco norte de Israel foi "pacificado" Olmert pode voltar seus olhos para leste, em direcção a Damasco onde o oftalmologista Bashar Al-Assad terá de ser derrubado a fim de assegurar caminhos para oleodutos do norte do Iraque até Haifa. Deste modo Israel tornar-se-á um grande jogador nas guerras por recursos deste século e um líder na região.
O jogo do xadrez geopolítico está a desdobrar-se tal como fora escrito anos atrás pelos neoconservadores que na altura haviam sido considerados como radicais e lunáticos. Ninguém está a rir agora. Os 12 aldeões que foram massacrados ontem em Srifa pelas bombas israelenses não estão a rir-se nem os pais das 11 crianças que foram vaporizadas por um míssil israelense enquanto tomavam banho num canal no campo de refugiados de Oasmia.
Isto é o cálculo da miséria humana; a matança deliberada de pessoas inocentes para alcançar objectivos políticos. Não é diferente do terrorismo. Bush e Olmert são dois homens que têm confiança absoluta na capacidade da violência para modelar o comportamento. Eles não estão preocupados com os rios de sangue que alimentam seus sonhos. Afinal de contas, trata-se de pessoas "dispensáveis".
19/Julho/2006
O original encontra-se em http://www.uruknet.info/?p=m24811&hd=0&size=1&l=e
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
Fonte: resistir

Wednesday, July 26, 2006

líbano!





Saturday, July 22, 2006

Flap-se


Hoje tem literatura no Rio de Janeiro, é a FLAP (o que quer dizer: Não se sabe, ninguém sabe).
O povo vai desembarcar por aqui... E vale conferir!

A programação está bem diversificada, assuntos como gestão cultural, incentivos para o segmento de criação literária e o que está rolando de última hora na literatura, serão debatidos neste final de semana... Começa hoje, aliás, já está começando...

Friday, July 21, 2006

Bagatelas

Caro leitor, leitora,

Leia a coluna que publico na bagatelas, lá você encontrará contos e crônicas que atualizo semanalmente. Publiquei, recentemente, textos de Fernanda Shcolnik. Vale conferir!

abraços!!!

rio movediço (prosa)

Tempo nublado. Mas, mormaço. Alguns zumbidos de mosquito estalando próximos ao pescoço. O barulho do rio movendo-se. Sentado na margem do rio, entre o capinzal que esconde insetos e anfíbios escorregadios, ele observa o marolar. Data: não sabe, nome: não lembra, local: nem imagina, apenas um dolorido na nuca e uma remota sugestão.
A roupa é esfarrapada. A camiseta regata: amarela. A calça de tons marrons tem mais do que a cor somente, tem também uma pasta viscosa colada ao tecido. Não há cheiros. Sol, muito sol. Parece até que alguns peixes nadam nas bordas do rio. Peixes escuros e velozes, passeiam num ir e vir constante, movimento migratório, são muitos, aproximam-se dele, olham-no certeiros, e depois partem em direção ao desconhecido, seguindo o fluxo das águas, esgueirando-se entre as rochas e as algas, nadando nas corredeiras.
Do outro lado, vê-se várias árvores com jeito de esquecidas, suas folhas caídas emolduram o tronco, cobrindo quase todos, algumas até a copa, inclusive, como uma massa amarronzada ou areia movediça, acúmulo de húmus, de vermes, de minhocas, de vida, mas não uma vida como forma, embora consistente, apesar de líqüida também, uma vida espessa, que se expande pelas árvores e se mistura ao solo. Vida esquiva e escorregadia.
Há na largura de uma margem até a outra, uma medida que não se escandeia por ninguém, só por aqueles olhos esbugalhados, únicos olhos presentes no ato e no dia desconhecido, cheio de artérias saltando por fora das pupilas. No meio, pulsando velozmente, passa o rio que ele não sabe onde nasce, nem onde finda. Mas do lado em que ele se posta de cócoras num movimento encarquilhado cheio de curvaturas, é lá onde ele tenta auscultar com a vista a longa passagem que se delineia de uma margem até a outra, de um ponto que vai giratoriamente o circulando, colocando-o no centro de um sol encardido, ele não visualiza o que está se descortinando por detrás da margem do rio movediço, porque não está consciente e não está com os olhos palpitando, nem mesmo sentindo os cílios, porque neste momento, ele é ausência, vácuo e ponto suspenso. É sono. E balança na cama de um lado para o outro lentamente, como se estivesse em um barco deslizando pelo rio, sendo ninado. Sonhando.