Entrevista Com Ondjaki que eu e Tatiana Carlotti fizemos para o especial Lusofonia da Carta Maior:
Da memória da infância à construção de um romance que contorna a História de Angola
“A literatura deve ser um compromisso do autor com o seu mundo interno, ainda que, muitas vezes, esse caminho faça-se falando e repensando o real, o histórico.”
Flávio Corrêa de Mello e Tatiana Carlotti – especial para Carta Maior*
Ondjaki é poeta, sociólogo, roteirista e romancista. Angolano de 29 anos, escreveu romances, como Bom dia camaradas (2001), O assobiador (2002) e Quantas madrugadas tem a noite (2004), habitados por personagens que lutam para entrever beleza e esperança entre os destroços de uma das mais longas guerras civis africanas.Ondjaki é artista eclético: interessa-se pela interpretação teatral e pela pintura, já tendo realizado duas exposições individuais, em Angola e no Brasil; escreve para cinema - co-realizou um documentário sobre a cidade de Luanda, Oxalá cresçam Pitangas, de 2006. É membro da União dos Escritores Angolanos. Recebeu, no ano 2000, uma menção honrosa no prémio António Jacinto (Angola) pelo livro de poesia Actu Sanguíneu. Em 2005, o seu livro de contos, E se amanhã o medo, obteve os prémios Sagrada Esperança (Angola) e António Paulouro (Portugal). Tem diversas traduções em francês, espanhol, italiano e alemão.Ondjaki esteve recentemente no Brasil, participando da 4ª Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, onde dividiu com o americano de origem nigeriana, Uzodinma Iweala, a mesa “África, Áfricas”, na qual os dois jovens autores conversaram sobre a situação de seus países de origem e sobre seus romances, que descrevem situações de guerra civil de um ponto de vista inusual: o da infância. Conversamos com Ondjaki que foi muito conciso e pontual em suas respostas sobre temas como a própria trajetória literária, as confluências entre a escrita e a política em seu país, literatura africana e seu romance recém-lançado no Brasil, Bom Dia Camaradas.
Carta Maior – Como nasceu a escrita dentro de ti? Fale um pouco da tua trajetória.
Ondjaki - Nunca se sabe quando a escrita nasce dentro de nós. A minha trajetória inicia-se por nascer em Luanda, uma cidade cheia de histórias, de ficção, de fantasia, também de pobreza e muitas vidas diferentes. A minha literatura apareceu primeiro nos poemas, tristes, da adolescência. Depois fui para o conto. Depois aprofundei a poesia. Depois me iniciei nos romances. Quando dei por mim já estava a escrever.
CM - Como nasceu Bom dia Camaradas, recém-lançado no Brasil?
O - Foi o desafio de um editor amigo, angolano. Ele queria um livro que falasse da minha perspectiva da independência de Angola. Eu nasci em 1977, dois anos depois da independência, e eu pensei que a minha visão sobre todo esse processo histórico era a da minha própria infância. Organizei algumas memórias, preparei alguns capítulos e comecei a escrever. Claro que tive que ficcionalizar a minha vida, e a dos outros também. Mas um livro é sempre isso.
CM - Como avalias a participação de Cuba em Angola?
O - Esta resposta exigiria muito mais espaço, porque sou contra avaliações e respostas superficiais. Mas digamos que a presença cubana em Angola foi fundamental para impedir que os sul-africanos tomassem o poder em Angola, nas várias ofensivas que fizeram durante os anos 80. A cooperação cubana também ajudou parte da população, com assistência médica e educacional. Só posso considerar essa presença como positiva.
CM – Qual a relação entre política e literatura atualmente em Angola?
O - Penso que é ainda muito forte. Mas acho que os escritores devem, acima de tudo, obedecer aos seus ímpetos ficcionais, estéticos. A literatura deve ser um compromisso do autor com o seu mundo interno, ainda que, muitas vezes, esse caminho faça-se falando e repensando o real, o histórico. Mas o ponto de partida deve, acho eu, ser interno. A verdadeira arte vem de dentro.
CM – Qual a importância da incorporação de dialetos e do falar angolano no processo de criação?
O - A incorporação ou exclusão de determinados falares é uma opção estética. Serve a minha literatura, serve a algumas das histórias que quero contar. Vejo essa incorporação de ritmos e de palavras como uma necessidade estética de cada um.
CM - Há espaço para a nova literatura em Angola?
O - Todo o espaço. A literatura angolana está em permanente nascimento. Nós, os novos escritores, sentimos o peso da qualidade daqueles que nos antecederam, isto é, fomos antecedidos por grandes nomes e é difícil não sentir isso. Mas gosto desse desafio. A boa literatura nunca foi fácil, nem em Angola nem na Conchichina.
CM - O que é a boa literatura?
O - Não sou especialista em literatura, apenas sinto que a boa literatura engrandece a arte de escrever e o modo de sermos humanos. Há livros que acrescentam valores culturais à Humanidade.
CM - Quais outros escritores africanos você recomenda a leitura?
O - São muitos, mas poderia falar de Luandino Vieira, Ruy Duarte de Carvalho, Ana Paula Tavares, Manuel Rui, Boaventura Cardoso, João Maimona, Mia Couto, Luis Bernardo Honwana, Eduardo White, Paulina Chiziane, Conceição Lima, Germano de Almeida...
CM - O que tens a dizer ao leitor brasileiro?
O - Não sei o que dizer... Faz sentido pedir que nos leiam, a todos os autores africanos, sem preconceitos e com abertura sensorial para nos receberem na nossa diversidade?
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